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Presente

(Texto de 2011. Não lembro a data. O desafio era “descrever o presente, o momento exato em que estava se escrevendo aquilo”. Me segurei para não alterar nada agora ou o propósito do exercício seria perdido.)

Quarto retangular,

aéreo.

Casaco encardido que cai sobre os ombros como cascata de água quente. Amarelo vivo tingindo a decoração púrpura. Livros observadores nas prateleiras. Um odor de churrasco que se despreguiça sobre a cama vazia…

Um latido. Grito menino. Ambulância que voa. Música suave a caminhar pelo corredor dos apartamentos. O vento que nos ouve, sem tocar.

Presente de um relógio sem um ponteiros. Os segundos relampejam numa coloração dourada enquanto estica o tempo.

Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac.

Vejo só o meu rosto num espelho.

Mas o quarto está lotado.

Pelo aroma de uma revista recém-comprada. Pelo estreitar de olhos das capas que me perseguem. Pelo calor deixado na cascata de algodão. Pelo grito menino e pela brisa sutil.

Meu sorriso preenche o retângulo oco.

Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-

Sou eu a dona do ponteiro dos segundos…

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Publicado por em 15 de março de 2014 em Uncategorized

 

Beware the Frozen Heart

Pois é… Eu, como mais algumas milhões de pessoas, me apaixonei completamente pela nova animação da Disney, Frozen. Mas a parte esquisita é que meu amor não foi bem à primeira vista.

Assisti ao filme inteiro duas vezes no cinema – e, em pastiches, mais de um milhão na internet. Na primeira, fiquei ~encantada~ com as sequências musicais, com a qualidade da animação digital e com a leveza da história, ridiculamente engraçada apesar de vez ou outra passar de raspão por temas menos lúdicos.

Alguma coisa me incomodava, porém, e não era apenas a breguice de uma frase final. Era algo em relação à estrutura da história.

Saindo dessa primeira sessão e trocando opiniões com um amigo, entendi: a estrutura da jornada do herói estava “errada”.

Vou evitar ser muito específica, mas adianto que esse texto contém spoilers.

Para quem estava na lua nos últimos meses e não faz ideia do que se trata o filme, uma rápida sinopse. Frozen é sobre duas irmãs: Elsa, a mais velha, que nasceu com uma benção/maldição que a torna capaz de manipular neve e gelo; e Anna, a caçula desastrada e sempre sonhadora que idolatra a irmã e não tem poder nenhum além de uma superpositividade. Na infância, as duas princesas eram melhores amigas até que, sem querer, Elsa quase mata a irmã com seus poderes descontrolados. O incidente não passa de um susto, mas é o suficiente para que Elsa comece a se culpar pelas próprias habilidades e se isole do mundo. No dia de sua coroação como rainha, porém, sobrecarregada de emoções, ela não consegue mais ocultar os poderes, coloca o reino inteiro num inverno eterno e foge para nunca mais voltar. É aí que começará a jornada de Anna para trazer sua irmã, e o verão, de volta ao reino de Arandelle.

Se você esteve ligado no Oscar, no YouTube, ou em, really, qualquer parte ligeiramente americana da rede, percebeu que a internet ama Frozen.

Não, é sério. A internet FUCKING AMA Frozen.

Com o hino de libertação “Let it Go” na dianteira, não é muito difícil perceber que, para a maioria das pessoas, a personagem mais magnética da história é Elsa, heroína relutante e confusa com a qual é difícil não se solidarizar. Se você não acredita em mim, pesquise o nome dela no Deviantart e fique horas babando com a quantidade de fanarts inacreditáveis de tão lindos. Para muita gente, Frozen é a história de aceitação de si mesma de uma garota que tem medo demais de seu próprio potencial para torná-lo algo belo. É sua jornada por amor próprio.

Sobrancelhas arqueadas são sempre charmosas.

Sobrancelhas arqueadas são sucesso garantido.

Exceto que não exatamente.

Isso porque, em Frozen, embora a evolução mais importante da história seja, de fato, de Elsa, a jornada é, literalmente, praticamente toda de Anna. Eu não sou exatamente uma daquelas pessoas insuportáveis estudadas que defendem praticamente uma estrutura de receita de bolo para as narrativas, mas, Frozen – e a maioria dos filmes da Disney -, é construído de uma maneira tão redondinha que fica difícil não achar que há algo de estranho quando uma peça fica fora do lugar.

Isso ficou na minha cabeça por um tempo. Foi quando decidi rever o filme. E, man, o que eu assisti dessa vez foi diferente.

Com as músicas originais já decoradas, sabendo quais eram as partes mais engraçadas e emocionantes, e já ciente de como ia terminar, eu fui com uma cabeça diferente, mais atenta talvez. A primeira coisa que me chamou a atenção foi como, desde o comecinho do filme, as pistas para aquilo que garantirá o final feliz já são posicionadas. Ainda que isso não torne o momento da revelação menos desajeitado, dá para perceber desde de cara que as forças contrárias que se chocam em Frozen não vem em forma de bem e mal, ou certo e errado, mas de… amor versus medo.

Essas palavras são repetidas o tempo todo, à exaustão, separadas ou juntas, nos diálogos ou nas músicas, em tom de comédia ou de angústia. E aí a gente lembra do que fez a Disney a Disney: a empresa sabe falar com o seu tempo, para bem ou para mal. Francamente, existe algum assunto mais em voga em nosso mundo hoje do que o conflito entre o medo (o sufixo “fobia” em várias palavras que nem preciso mencionar) e o poder restaurador do amor, como aceitação?

Fazer uma narrativa sobre isso por si só seria inteligente, mas o que torna Frozen realmente genial, na minha opinião, é justamente aquilo que achei estranho na primeira vez que assisti.

Elsa, cujos poderes tornam-se ainda mais descontrolados e perigosos quando é dominada pelo medo, não tem escolha além de se afastar de todo contato humano que possa abalar sua já escassa autoconfiança. Ela sofre de ataques de pânico e, se vivesse no mundo real, possivelmente estaria tomando antidepressivos. Quando chega ao fundo do poço (leia-se: descobrem seu segredo), ela foge e percebe que afinal de contas, agora que perdeu tudo o que tinha, não possui motivos mais para se conter. E é aí que Elsa renasce e, no isolamento de uma montanha congelada, passa a amar a si mesma e a seus poderes. Que é, por acaso, a cena quando toca a “Let it Go”, vencedora do Oscar de Melhor Canção Original desse ano.

Só que, por mais importante que seja o amor próprio (na história e no nosso mundo), ele não se basta por si só. O filme não acaba aí. Embora Elsa tenha ganhado autoconfiança no processo de se libertar dos medos que a prendiam, o reino continua a sofrer com os efeitos do inverno eterno que ela sem querer liberou.

O amor próprio e a autoconfiança por si só não são suficientes.

E é então que entra Anna. Diferente de Elsa, a irmã mais nova é agitada, elétrica e otimista. Anna nunca deixa de acreditar que Elsa pode reverter a situação que criou e, embora sua relação tenha esfriado (háhá) depois do afastamento da outra, ela decide sair em viagem sozinha para salvar o reino e a irmã de si mesma. É aí que, finalmente, depois de um acidente que coloca sua vida em risco, Anna decide literalmente sacrificar a própria vida por Elsa.

O ato é redentor não apenas para Anna, que se vê livre de uma maldição, quebrada apenas por um ato de amor verdadeiro, mas principalmente para Elsa, que finalmente entende que o segredo para controlar seus poderes é o amor. Não apenas o amor próprio, mas, principalmente, o amor da aceitação que apenas uma outra pessoa pode ceder.

Vendo por esse ângulo, faz sentido que, embora a aventura seja de Anna, o crescimento mais importante na história seja de Elsa: porque a superação completa do medo de se ser quem se é requer carinho e compreensão externos.

Frozen entrou fácil no meu Top 3 filmes da Disney, ao lado de Mulan e Rei Leão. Comparado com esses outros dois, ainda acho que certas cenas poderiam ter sido melhor editadas na versão final. Valeu, entretanto, pelo pioneirismo de falar de forma tão delicada sobre amor, redenção e coragem. E, principalmente, por trazer na própria estrutura da jornada a resposta para o final feliz.

 
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Publicado por em 14 de março de 2014 em Uncategorized

 

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As cores de um monstro

Nota: Esse rascunho está esperando ser publicado desde 30 de dezembro de 2011! Dei uma ou outra mexida, mas no geral está como deixei na época. Basicamente é um treinamento de ambientação. Acho que tentei praticar um pouco com a voz da personagem, mas não muito.

Antigamente, (antes da invenção do desfluxizador do tempo) as pessoas mediam os anos a partir de um separador engraçado, na época conhecido como a.C. e d.C. Ou “antes de Cristo” e “depois de Cristo“, que é como aprendemos com os mestres escolásticos. Este sujeito, Cristo, foi uma importante figura numa antiga religião (que os intelectuais/intelectoides/intelectídeos da História das Iconoclastias Pós-Antiga chamam de “Cristianeismos”) e teve tamanha influência que seu suposto nascimento marcou o calendário de boa parte da humanidade Ocidental (houve uma época em que esse termo, bem como um “Oriental” eram utilizados como divisor geográfico, mas não me peçam maiores detalhes. É tedioso, podem ter certeza.)

Lembro-me de, criança, achar graça sempre que um mestre falava daquele tempo. Pensava logo no ano zero. Antes ou depois? Seria o zero a.C ou d.C? O professor de Gramática Mundial Intermediária sorriu diante da questão, os músculos faciais se expandindo junto com minha dúvida. Piscou uma, duas vezes, e então, como quem raspa distraidamente os vestígios de tinta de um cavalete, disse:

-Violeta, minha curiosa Violeta! Bendita a sua mente! Tão divertida! Tal designação ocorre apenas para organizar os eventos no tempo e no espaço. Tornar o pensamento etéreo uma medida para ações concretas! O que saber sobre o zero? Medida matemática! Pouco significa em nossa aula. Números são com o mestre Pacheco; por que não interrogá-lo depois? Mas maravilhosos são seus neurônios!

Eu interroguei o outro professor. Mas, Ludwig Pacheco, escolástico em Ciências Matemáticas em Cálculos de Proporção Mediana e Nomenclaturas Similares, também se recusou a responder.

-É sagaz, minha minuta. – Ele esboçou algo como simpatia pálida. – Mas esta é uma questão que Shinichi, de História Pós-Antiga Pré-Desfluxizador e Pós-Guerra do Plutônio, poderá explicar melhor, sim? Agora… O que me diz desta equação? A raiz cúbica de 29, considerando o valor inexato…

Blá, blá, blá, blá…

Etc. etc. etc.

Desisti das perguntas sérias aos mestres. Algum tempo depois, li num artigo que um menino, quase da minha idade, havia sido punido em aula por questionar a validade do Trato de Normalidade. O artigo citava os malefícios de uma exagerada liberdade de expressão em ambientes de comum uso educacional e trazia uma pequena biografia dos antecedentes rebeldes da criança, que já estava novamente passando bem.

Emocionda com a possibilidade de algum tipo de retorno – a agitação de uma plausível punição -, decidi perguntar ao mestre de Saúde Infantil, Mental e Física Especial, o Sr. Jonas Smith, a mesma coisa que o menino.

-Minha querida, minha querida. – Ele sacudiu a cabeça, conforme o horror era abanado. – Há quanto tempo o trato vige, hmm? Há 150 anos, acredito? A senhorita como ninguém deve saber. Bem, bem… Como questionar a sabedoria da tradição?

Então ele sorriu e continuou com a lição.

Neste dia, tive consciência de minha importância, algo vagamente relacionado à riqueza, mas não apenas. Uns 100 anos atrás um antepassado meu descobriu uma mistura química que, resumindo, pode mudar você: mais ou menos como transformar um ser humano adulto em uma tela branca, pronta para serem aplicadas os matizes mais graciosos. Graças a isso, o Trato de Normalidade pôde ser criado. Na comunidade científica este “remédio” é chamado de Nordita – uma homenagem cafona e um nome feio.

Curto mais a maneira como o povo médio e as mídias o chamam: A Dose. É mais sujo, sei lá.

Eu, Vita du Nord, sou o que você chamaria de socialite, pois quase tudo o que herdei veio da apropriação da Dose pelo Governo Centralizado Planetário. Isso e mais uns investimentos posteriores que meus pais fizeram no escasso cenário artístico não robótico que sobrevive como objeto de fetiche. Não preciso e nunca trabalhei sequer um dia da minha vida. Hoje, sou a mais bem-sucedida pintora performática dos últimos dez anos. O assim reconhecido “talento flamejante da nova geração”, “remédio em forma e cores”, “felicidade estampada em retângulos”.

Obrigada por essa, vovô.

Velho de merda.

Como explicar? O professor Salim Shinichi estava certo: meu destino sempre foi divertir pessoas, curar pessoas, dar conforto moral às pessoas – através da minha arte. Elas gostam das minhas cores. Admiram minhas pinceladas arredondadas e a movimentação simétrica tranquilizante dos meus hologramas. Entendem tanto de estética quanto um botânico de literatura. Mas me amam. Sou um gênio, nem tanto devido à minha horda de fãs trogloditas, mas mais por compreender exatamente o que querem de mim.

Existem apenas três cores verdadeiras, porém: a primeira é o preto. O negro. O vazio. A ausência. O que é, afinal de contas, a vida senão uma grande exceção? O nada, o nada absoluto é a regra.

A segunda é o azul. O azul de uma noite estrelada e quente refletindo num oceano morno, lento, que sempre, sempre morde a si mesmo.

A terceira é o vermelho. Um vermelho grosso, salpicado de pedaços gelatinosos de carne. Como naquele incidente com ela (um revólver, uma abelha, uma lata de sopa).

Estas são as minhas três cores. As cores de minha alma. Mas não são essas que mostro aos trogloditas com taças de espumante e sotaque elegante.

Para eles pinto em ciano, magenta e cobre vibrante. Para eles, faço palhaços montados em triciclos, zepelins prateados e faces coradas. Para eles, performo a vitória do sonho sobre o pesadelo, do belo sobre o hediondo.

Porque é isso o que artistas geniais fazem.

Nunca mostrei os bastardos de minha alma depois que entendi que ninguém queria vê-los. Continuo a pari-los, em segredo, produzindo-os paralelamente a seus “gêmeos” legítimos, que, apesar das aparências, têm algo do veneno dos originais. Poucas coisas excitam mais do que o prazer que se sente ao envenenar os normais com doses imperceptíveis de arte insatisfeita.

Mas hoje vejo pálpebras semicerradas e olhos tricolores – preto, azul, vermelho.

Vejo um nariz ligeiramente quebrado numa delicada ponte partida. Vejo uma queda. Vejo óculos escuros. Vejo metal caindo do céu.

Não vejo nada.

Ano 0. Iniciar.

 
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Publicado por em 28 de fevereiro de 2014 em Uncategorized

 

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Um pouquinho mais que um diário, um tanto menos que um ofício

Ok, de uns tempos para cá esse blog ficou bem, bem, beeem abandonado. Não foi tanto por esquecimento quanto por falta generalizada de energia e foco para escrever. No comecinho de 2012, eu até cheguei a deixar vários rascunhos de textos que queria publicar aqui. A ideia era criar alguma regularidade, manter a escrita em movimento.

Mas a vida é essa coisa meio imprevisível e, de lá para cá, tive dificuldades imensas de me dedicar a atividades criativas (para não cair no chavão espalhafatoso de me autoproclamar artista, quando artistas são dedicados onde eu sou dispersa). Agora, resolvi tentar um strike-back, nem tanto para publicar textos novos (ou mesmo bons, porque só Deus sabe que a maior parte do que escrevo não funcionaria nem como leitura de privada), mas para tentar produzir alguns estudos sobre personagens, estruturas narrativas e ambientações e, talvez, realizar uma pseudocuradoria da quantidade ridícula de textos razoáveis que tenho na memória de meu computador. Separar uns mais okay.

Como falei, a ideia não é publicar qualquer coisa primorosa ou fingir ter um conhecimento técnico que francamente não tenho, mas fazer testes. Assim como um desenhista em formação carrega seu caderninho até a pracinha para estudar efeitos de luz e sombra, perspectiva e movimento, talvez uma escritora/criadora em formação precise estudar a voz de um personagem, seu ponto de vista, maneiras harmônicas de se estruturar uma história e por aí vai… Sem a pressão da finalização, com as marcas ásperas do esboço ainda aparecendo por baixo de algo a ser refinado.

Soooo…. começando?

 

 
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Publicado por em 28 de fevereiro de 2014 em Uncategorized

 

Mapa

Sinto que o que eu sinto você não possa sentir.
Meu bem, o que é esse seu sorriso quando não estou nele?
Pra que as frases iluminadas se é transparente?
O que são os mundos mágicos contidos no mundo banal
de meu café da manhã?
Quanto pesa um sonho abatido pelo despertar? Read the rest of this entry »

 
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Publicado por em 20 de dezembro de 2011 em Uncategorized

 

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Sombra

Chove.

Escureceu mais depressa do que em meu sonho. Nuvens avolumam-se no horizonte, deixando um rastro de água em seu caminho. Meu destino está à frente. Não posso parar, não devo recuar. Read the rest of this entry »

 
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Publicado por em 16 de outubro de 2011 em Uncategorized

 

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Ciclo

Ele tomou asco

pela dor,

o sangue sem corte

o sal sem lágrimas

aquelas rugas de

feiura

rugas de tristeza

mole,

quente,

e fria também.

.

E lábios secos

de amizade frígida.

.

Talvez seu

coração

exploda

.

agora.

 
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Publicado por em 9 de outubro de 2011 em Uncategorized

 

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